quinta-feira, 3 de junho de 2010

Pelos sertões do Seridó II

Fazenda Acauã, Acari/RN, por entre arames e capins, a Serra d´Acauã impõe sua beleza.

Gramatura de terra


fineza de água correndo nos vãos dos serrotes cinzas


curvas açoitadas pela visagem de um açude...


terra minha, explodida, mineral, quente


surpreendida pela presença onipotente das serras doídas


na vista de uma visitante e filha


que pertence


e ao mesmo tempo desconhece a origem de sua beleza.


segunda-feira, 31 de maio de 2010

Pelos sertões do Seridó


Compartilhando uma de minhas poesias feitas nessas releituras de sertão, Oswaldo Lamartine, Ariano Suassuna e de minha própria história sertaneja...
A foto é minha e foi tirada durante uma dessas releituras-pesquisa-participante que depois compartilharei alguns momentos com vcs por aqui.
Por enquanto fiquem com a poesia.
Abraços.




N´algum espinho daqui

O sangue deixei estampado

Ligando o tabuleiro da Serra

Ao meu coração desarmado

Uma tapeçaria sem dono teci

Com a sorte de fio brocado

Uma lida de sonho e de amor

Tingida pelo fio da dor

Que nem de longe se vê o barrado.



Elina Carvalho

domingo, 30 de maio de 2010

Envelhecendo em um minuto

Esse vídeo vale a pena ser asssitido...ele vem de encontro à reflexão da última postagem.

Assistam e comentem.

Beijos

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Morangos Silvestres


for a long time...

aqui estou eu, depois de quase desistir desse lance exigente de alimentar blogs, cuidar de casa, filho, marido, gatos e afins, resolvi voltar a essas plangentes terras. volto em alto estilo, pra comentar um dos filmes mais lindos que assisti na vida: Morangos Silvestres, de Ingmar Bergman. É um filme feito na década de 1940 que mostra com leveza a profundidade do ato de envelhecer, de rever valores e posturas construídas ao longo do tempo. Fiz uma leitura de minha própria vida ao ver o filme e me vi daqui a 40 anos, já velha, com as minhas preguiças, meus ranços de preconceitos (sim, todos nós temos), minhas reclamações...tive medo de continuar errando assim e ao envelhecer me arrepender. A fotografia é impecável, com foco existencial bastante definido nas expressões dos atores, o cenário que não é rebuscado, mas se impõe com externas ambientadas em casas européias antigas, lindas estradas...vale a pena assistir, vai nos conduzindo pela mão, nos convidando a adentrar em nosso próprio mundo, em nossas escolhas de vida...


domingo, 11 de abril de 2010

Quero

Drummond

Quero que todos os dias do ano
todos os dias da vida
de meia em meia hora
de 5 em 5 minutos
me digas: Eu te amo.

Ouvindo-te dizer: Eu te amo,
creio, no momento, que sou amado.
No momento anterior
e no seguinte,
como sabê-lo?

Quero que me repitas até a exaustão
que me amas que me amas que
[me amas.
Do contrário evapora-se a amação
pois ao dizer: Eu te amo,
desmentes
apagas
teu amor por mim.

Exijo de ti o perene comunicado
Não exijo senão isto,
isto sempre, isto cada vez mais.

Quero ser amado por e em tua palavra
nem sei de outra maneira não ser esta
de reconhecer o dom amoroso,

a perfeita maneira de saber-se amado:
amor na raiz da palavra
e na sua emissão,

amor
saltando da língua nacional,
amor
feito som
vibração espacial.

No momento em que não me dizes:
Eu te amo,
inexoravelmente sei
que deixaste de amar-me,
que nunca me amaste antes.

Se não me disseres urgente repetido
eu te amoamoamoamoamo,
verdade fulminante que acabas
[de desentranhar,
eu me precipito no caos,
essa coleção de objetos de não-amor.

sábado, 10 de abril de 2010


O Carnaval de Bandeira

Manuel Bandeira





VULGÍVAGA


Não posso crer que se conceba
Do amor senão o gozo físico!
O meu amante morreu bêbado,
E meu marido morreu tísico!

Não sei entre que astutos dedos
Deixei a rosa da inocência.
Antes da minha pubescência
Sabia todos os segredos...

Fui de um... Fui de outro... Este era médico...
Um, poeta... Outro, nem sei mais!
Tive em meu leito enciclopédico
Todas as artes liberais.

Aos velhos dou o meu engulho.
Aos férvidos, o que os esfrie.
A artistas, a coquetterie
Que inspira... E aos tímidos — o orgulho.

Estes, caço-os e depeno-os:
A canga fez-se para o boi...
Meu claro ventre nunca foi
De sonhadores e de ingênuos!

E todavia se o primeiro
Que encontro, fere toda a lira,
Amanso. Tudo se me tira.
Dou tudo. E mesmo... dou dinheiro...

Se bate, então como estremeço!
Oh, a volúpia da pancada!
Dar-me entre lágrimas, quebrada
Do seu colérico arremesso...

E o cio atroz se me não leva
A valhacoutos de canalhas,
É porque temo pela treva
O fio fino das navalhas...

Não posso crer que se conceba
Do amor senão o gozo físico!
O meu amante morreu bêbado,
E meu marido morreu tísico!

O cão sem plumas

João Cabral de Melo Neto



I. Paisagem do Capibaribe

A cidade é passada pelo rio
como uma rua
é passada por um cachorro;
uma fruta
por uma espada.

O rio ora lembrava
a língua mansa de um cão,
ora o ventre triste de um cão,
ora o outro rio
de aquoso pano sujo
dos olhos de um cão.

Aquele rio
era como um cão sem plumas.
Nada sabia da chuva azul,
da fonte cor-de-rosa,
da água do copo de água,
da água de cântaro,
dos peixes de água,
da brisa na água.

Sabia dos caranguejos
de lodo e ferrugem.
Sabia da lama
como de uma mucosa.
Devia saber dos polvos.
Sabia seguramente
da mulher febril que habita as ostras.

Aquele rio
jamais se abre aos peixes,
ao brilho,
à inquietação de faca
que há nos peixes.
Jamais se abre em peixes.

Abre-se em flores
pobres e negras
como negros.
Abre-se numa flora
suja e mais mendiga
como são os mendigos negros.
Abre-se em mangues
de folhas duras e crespos
como um negro.

Liso como o ventre
de uma cadela fecunda,
o rio cresce
sem nunca explodir.
Tem, o rio,
um parto fluente e invertebrado
como o de uma cadela.

E jamais o vi ferver
(como ferve
o pão que fermenta).
Em silêncio,
o rio carrega sua fecundidade pobre,
grávido de terra negra.

Em silêncio se dá:
em capas de terra negra,
em botinas ou luvas de terra negra
para o pé ou a mão
que mergulha.

Como às vezes
passa com os cães,
parecia o rio estagnar-se.
Suas águas fluíam então
mais densas e mornas;
fluíam com as ondas
densas e mornas
de uma cobra.

Ele tinha algo, então,
da estagnação de um louco.
Algo da estagnação
do hospital, da penitenciária, dos asilos,
da vida suja e abafada
(de roupa suja e abafada)
por onde se veio arrastando.

Algo da estagnação
dos palácios cariados,
comidos
de mofo e erva-de-passarinho.
Algo da estagnação
das árvores obesas
pingando os mil açúcares
das salas de jantar pernambucanas,
por onde se veio arrastando.

(É nelas,
mas de costas para o rio,
que "as grandes famílias espirituais" da cidade
chocam os ovos gordos
de sua prosa.
Na paz redonda das cozinhas,
ei-las a revolver viciosamente
seus caldeirões
de preguiça viscosa).

Seria a água daquele rio
fruta de alguma árvore?
Por que parecia aquela
uma água madura?
Por que sobre ela, sempre,
como que iam pousar moscas?

Aquele rio
saltou alegre em alguma parte?
Foi canção ou fonte
Em alguma parte?
Por que então seus olhos
vinham pintados de azul
nos mapas?